sexta-feira, 12 de novembro de 2010

1 - livro que mais gostei


1984 não deveria estar nesta lista - não porque é hors concours, mas porque não é obra literária. Se George fosse Jorge e Orwell fosse Hórvel, e Eric Arthur Blair brasileiro e do sexo feminino, chamar-se-ia Mãe Dináh. Caso nascesse homem no Brasil: Pai Jorge. 

Mas ninguém leva a sério jogadores de búzios e tarô. Então, Pai Jorge, quando teve a premonição, resolveu transformar sua viagem ao futuro em romance. Assim seria respeitado, e não tratado como charlatão. Tornou-se, portanto, o autor do melhor livro de todos os tempos – todos os tempos que passaram e virão -, melhor livro que existe, existiu ou existirá. 

Já Nostradamus, que preferiu ser profeta a escritor, será eternizado na memória popular como mero louco, um Valter Mercado arcaico. Em 2012, quando todos reconhecerem sua sanidade, será tarde. A terceira grande guerra já terá eclodido e só as baratas restarão.

Jorge Hórvel nasceu na Índia, teve pais ingleses que chamaram-no de Eric Arthur Blair. Eric Arthur Blair nasceu vidente, mas queria ser escritor. Transformou-se em George Orwell e escreveu 1984.
  

10 livros em 10 dias

   Não sabia o que era meme até ler um post num blog de uma amiga. Eu entendi meme como uma espécie de mistura de lista de perguntas que todo mundo tem de responder, misturada com uma corrente internáutica... Vamos lá.
  • 1° dia – Livro que você mais gostou;
  • 2° dia – Livro que você mais odiou;
  • 3° dia – Livro mais barato que você comprou;
  • 4° dia – Livro mais caro que você comprou;
  • 5° dia – Livro que mais te fez ter a atenção nele;
  • 6° dia – Livro que menos te fez ter a atenção nele;
  • 7° dia – Livro que você mais recomenda;
  • 8° dia – Livro que você menos recomenda;
  • 9° dia – Série de livros que você mais gosta e;
  • 10° dia -Livro mais velho que você tem ou leu.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Mais um pra coleção

 
 
   Sentia falta da bebida. Não me lembrava da última vez que havia passado dois dias seguidos sem botar nada de álcool pra dentro. Não me lembrava da última vez em que passaraum dia sem beber nada. Às vezes isso me deixava preocupado. Não queria me preocupar com isso. Não queria me preocupar com o que diziam sobre o cigarro e a bebida. Odiava quando tocavam no assunto. Eu só queria esquecer toda essa propaganda que te fazem acreditar que sabem o que é certo.
    Eu já tinha problemas o suficiente para me preocupar, não queria me preocupar com os meus vícios, não agora. Mas insistiam - tanto as propagandas, que eram mais fáceis de evitar, quanto as pessoas, essas mais difíceis de controlar - em repetir, que nem papagaios, as propagandas. Outra coisa que me agoniava eram os produtos light, diet, zero, sem açúcar. Mulheres com essas frescuras eu já estava acostumado a ver. Desde criança via boa parte das mulheres fazendo dietas e tomando refrigerantes dietéticos. Tudo bem. De uma hora pra outra, virou febre. Homens, mulheres, crianças, todos submetendo-se ao slogan: “Sejais saudável e tereis uma vida longa; senão morrereis de câncer”. E te olham como um câncer. Mais uma forma de controle: a busca da longevidade e do corpo perfeito. A busca da neurose e do corpo imperfeito; é isso que conseguem. E, assim como uma doutrina, religião ou culto, tentam te impor os padrões e te ameaçam. Da mesma forma como já fui “ameaçado” por um evangélico: “Quem não se entrega a Deus não alcança o reino dos céus”. Mesma coisa.
    Como já não bastassem os problemas que eu criava pra mim, eu ainda tinha que cultivar as neuroses dos outros, que volta e meia emergiam em minha mente. Era uma briga constante tentar expulsá-las. Problemas, na verdade, eu não tinha nenhum; mas sabe como é, qual a graça de viver sem problemas? O Veríssimo, Luís Fernando, escreveu uma ótima crônica na Folha de São Paulo a respeito. Não lembro o nome. Tratava de um cara que acordou e viu que tinha alguma coisa errada em sua vida, pois tudo corria bem, e quando, no final do conto, surgiu um problema, ele se contentou e sentiu que, agora, estava tudo bem. Então eu criava os meus problemas. Problemas com mulheres; e problemas com o medo de fracassar perante qualquer situação. Eu queria deixar a vida fluir, eu era expert nessa arte.  Ou pelo menos achava que era. Ia vivendo e as coisas iam acontecendo. Tudo acabava bem no final. E tem acabado até agora. Mas eu preciso criar problemas, preciso das minhas neuroses. Se eu não for neurótico, vou ser o quê? Psicopata, perverso, histérica?
   

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Aonde mais eu poderia estar?

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Num hotel de loucos
Na sala de estar
Dum hotel de loucos
Clichê me encontrar

Onde fico rouco
De tanto gritar
Fico louco
E posso me matar

Fico oco
Sem me julgar
Não me dizem “bobo”
Se não regular

Onde foi ao encontro
Meu último bem-estar
Num hotel de loucos
Na sala de estar.

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quem pretende ler 1984 não deveria ler este texto


    “Nos encontraremos num lugar onde não há escuridão”, disse O’Brien a Winston. O que não se passava pela cabeça de Winston era que a falta de escuridão é pior que o próprio breu; que o excesso de luz cega de maneira ofensiva – muito pior que qualquer trevas. Winston ficou aliviado, afinal de contas O’Brien era realmente seu aliado; era contra o sistema que enegrecia e corrompia e distorcia, de forma sorrateira, a história do país em que viviam.
    Winston não suportava - apesar de participar do processo - a idéia de os fatos serem distorcidos de acordo como melhor se enquadravam no momento político do país. Ele fazia parte disso, era cúmplice: redigia e reescrevia os fatos todos os dias; e os livros e jornais antigos eram queimados, para não haver dúvidas de qual versão era a verdadeira. Sabia que tinha algo de errado com o país em que vivia; ou seria com ele? O’Brien lhe tirou a dúvida: se alguém, tão lúcido e altivo como O’Brien, também achava que tinha algo errado, que o modo como as coisas funcionavam não deveriam ser assim, talvez, ou quase certo, Winston não estava ficando louco.
    Sentiu uma mistura de alívio com euforia; ele era sano; e o mundo, insano. Precisa, agora, dar um jeito de comunicar-se com O’Brien, de aliar-se a ele. Se O’Brien acreditava que outro mundo era possível, outro mundo deveria ser realmente possível. Porque, para Winston, viver num mundo sem história fatídica era impossível. Ele vivia num mundo impossível. O que fazer agora para alçar o mundo possível? Certamente O’Brien saberia a resposta. E Winston estava disposto a ajudar, a se sacrificar, se fosse necessário; faria de tudo para construir um novo mundo, baseado no fato e não na ficção: um mundo não fictício, onde todos poderiam confiar nos livros de história.
    Foi feliz do trabalho para casa. Precisava contar o que ocorrera para Júlia; sua suspeita se confirmara: O’Brien era mesmo aliado, e haveria de ter um plano para a construção de um novo mundo. Afinal, O’Brien lhe dissera: “Nos encontraremos num lugar onde não há escuridão”. Chegou entusiasmado em seu apartamento. Passou a mão no telefone e ligou para Júlia – havia esquecido completamente que há de se ter extremo zelo ao falar de certos assuntos, porque a polícia poderia prendê-lo ou até mesmo matá-lo; ninguém sabia ao certo o que acontecia com os contestadores do sistema.
    Acordou num lugar claro, tão claro que não conseguia discernir de onde vinham as luzes. Não havia salas nem corredores; tudo o que se podia ver, ou tentar ver, era um galpão enorme, que não se sabia que altura, largura e comprimento tinha. Winston não sabia se Júlia também havia sido pega. Será que ele tinha estragado tudo? Será que até O’Brien se ferrou por causa daquele estúpido telefonema? Ele sabia que dificilmente os veria de novo; e que provavelmente assinara sua sentença de morte. Se pudesse faria de tudo para salvar os dois, mesmo que tivesse que sofrer por anos a fio antes de sua execução.
    Passado o susto, ele conseguiu organizar os fatos em sua mente e lembrar o que acontecera após chegar em casa e discar para Júlia.
    “Ele é nosso aliado. Ele é nosso aliado, Júlia. Certamente ele deve ter um plano. Vou falar pra ele que você também é aliada; que você também não concorda com o sistema”.
    “Cala a boca, Winston. Eu não sou contra o sistema coisa nenhuma, nem sei do que você está falando. E não me incomode mais”.
    “Tu tu tu tu...”
    Júlia sabia que Winston tinha cometido um grande erro, e previu, e acertou, o que poderia acontecer. Mas, mesmo falando daquele jeito ao telefone, ela não conseguiu escapar. Também fora pega e estava “no lugar onde não há escuridão”.
    Quinze minutos após Júlia desligar o telefone - na mesma hora Winston se deu conta da burrice que tinha feito -, bateram à porta. Ele abriu-a e bum; nem viu o que lhe atingira. Quando acordou não via nada. Se deu conta que a claridade absoluta é quão ruim ou pior que a escuridão. E, se O’Brien havia lhe dito que se encontrariam num lugar onde não há escuridão, era porque ele não era seu aliado e sim aliado do sistema. Se sentiu aliviado, porque, a qualquer sorte, mais cedo ou mais tarde, ele e Júlia haveriam de ser pegos, pois acreditariam piamente em O’Brien. E O’Brien era um agente duplo.
    Pensando melhor, Winston concluiu, ele já sabia que haveria de morrer e que sua luta contra o sistema seria em vão. Ninguém pode ganhar do sistema; o máximo que se pode fazer é aceitá-lo e assimilá-lo. Quem houvera colocado essa história de mundo justo, moral, ético, livre – mesmo porque essas construções abstratas eram tão absurdas quanto à idéia de modificar o sistema – Winston não sabia. Por que ele havia de ter esses sentimentos; essa preocupação com os proletários, com o fictício e o fatídico, com os livros de história? Enfim: por que haveria ele de se questionar tanto em vez de viver numa boa? Por que, justo agora, que estava namorando com Júlia, não se abstivera de seus ideais? Por que dar murro em ponta de faca? Chegou a conclusão que cometera suicídio, e levara junto Júlia – justamente sua grande paixão. Realmente ele não merecia viver: um ser humano que, se pudesse prever o futuro, faria o que ele fez, precisa morrer; sofrer, sofrer e morrer.
    Uma alegria cálida invadiu o corpo de Winston. Ele sorriu: afinal, o mundo era justo.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

"liberdade: uma destas detestáveis palavras que tem mais valor do que significado" parte II, que deveria ser a parte I


    Quero dormir e ficar acordado; comer e jejuar; fixar-me e me mover; conversar e me calar. Sinto e não sinto, concomitantemente, vontade de mijar e cagar. Sou a melhor e a pior pessoa do mundo. Sou solidário; me importo com os outros. Sou egoísta; só penso no que será melhor pra mim; nada mais.    
    Necessito de um emaranhado de pensamentos, maior do que os habituais, para poder não pensar, ou poder pensar por mim com nenhuma ou menor influência externa. Só preenchendo o casulo, atordoando-o com excesso de informações, é possível ser livre de falácias externas. Antagônico? É o único jeito, pois, a partir da inserção social, a contaminação está feita, e as vozes externas e internas já não se distinguem mais.
    Preciso juntar todos os discursos, construções do âmago e do exterior, misturá-los e confundi-los ainda mais, deixando a confusão e caos tomarem conta. Porque, livrar-se de todas as retóricas, é impossível; exceto aos perversos: os únicos que se podem dizer livres.
    “Liberdade: uma destas detestáveis palavras que tem mais valor do que significado”. Cito a frase sem dizer o autor por ignorância. Li ela numa edição da Caras, na seção de pensamentos de personalidades. Voltando à citação, quero ilustrar duas possíveis hipóteses. Primeiro, a pior delas: em um mundo onde todos fossem livres (perversos) e fizessem tudo o que lhes der na telha, o caos reinaria; viveríamos na barbárie. Conclusão: concordaríamos com o pensamento citado: é impossível ser livre numa sociedade civilizada. A segunda, um pouco mais romântica, é que seria possível sermos livre, contanto que evoluíssemos a tal ponto onde não seríamos egocêntricos, abafaríamos o ego a tal ponto que sentiríamo-nos parte dum todo; conseqüentemente não sairíamos “nos” matando ou “nos” agredindo. Mas, a segunda hipótese, que a primeira vista pode parecer romântica e utópica, esconde a face da desumanização que acarreta uma perda de individualidade. Conclusão: para sermos livres precisaríamos perder a essência humana: a individualidade. O que seria uma contradição, já que para ser livre teríamos que abolir a palavra liberdade do vocabulário, pois seu sentido real deixaria de existir. Sem individualidade e capacidade de escolha “liberdade” e “livre” perderiam o sentido de serem acoplados ao dicionário. Portanto também cabe a esta hipótese a frase retirada da Caras.
    Ainda poderia abrir para mais possibilidade - que seria mais utópica que qualquer sistema socialista e capitalista já sonhados e mais abstrata que qualquer conceito de justiça ou de bom e mau – que tentarei descrever: seríamos todos livres (perversos), mas nossos sentimentos e vontades verdadeiras seriam compatíveis com o mundo civilizado e não haveria barbárie; não necessitaríamos de poderes; para tentar resumir e exemplificar o máximo que consigo: não necessitaríamos de polícia e nem nos policiarmos uns aos outros nem a nós mesmos, e também não existiriam grandes. A anarquia utópica.
    E, tentando ser livre, saí do transe. O som ainda penetrava fundo em minha mente; a caixa de som colada à orelha. E todos dançando como se espera que dancem; com medo de parecerem retardados.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Poesia do armário

Muitos querem
Poucos conseguem
Sair de mim

Esconder-se
Dado tempo
É bom

Uma hora
Perde a graça
Eu digo: “saia”

Ele veste a saia
E sai.

domingo, 3 de janeiro de 2010


 


quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Aos anos velhos e aos anos novos


Balanço do anus: 750 cagadas.
Para o próximo, desejo: 750 cagadas.
Passar a virada de marrom
Seria sensato.

Comilança e bebida
Até o cú fazer bico.
No primeiro do ano,
Uma bela cagada.

Faltam 749.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Hospital psiquiátricos e Centros Espíritas


   Eu estava internado em um hospital psiquiátrico há três dias. Já começava a sentir vontade de me matar. Descobri que minha prima também era interna do hospital. Ela vomitou seu espírito em um copo. Me falaram que se eu tomasse o espírito dela eu morreria. Foi o que eu fiz, foi o que ela fez. Quer dizer, ela tomou mais do que eu, eu desisti no meio porque percebi que aquela horrível experiência poderia me render um bom livro, e tentei me livrar da morte vomitando o espírito vomitado. Foi uma loucura quando acordei.

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eliane Brum contra os clichês

    Texto magnífico da Eliane Brum . É mais fácil deixar-se moldar do que moldar-se. Só apagando as vozes exteriores e escutando as interiores é que faz sentido. O resto é balela. É esta a síntese da minha interpretação de seu texto.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

delongasculpa ou deculpalongas

   
    Não adianta. O negócio é sentar e escrever. Sem recuar. Sem pensar. Sem estratagema. Sentou, escreveu, tá pronto. O problema são as veadagens, digo, preocupações que atormentam o imaginário: que nunca tá bom o suficiente, que poderia ser melhor, que alguém lerá e não gostará; essas boiolices todas, ou todas essas boiolices, sei lá. Só o que faltava é ter a ambição de escrever um baita texto num blog, ainda mais no meu que é lido por meia dúzia de gatos pingados – quero deixar bem claro que não estou menosprezando os gatos pingados, só estou menosprezando meu blog, apenas isso. Então o negócio mesmo é sentar e escrever. Sentei, escrevi, pronto. Pode perceber, você leitor, você leitora – ou você leitora, você leitor, antes que alguma feministazinha barata venha me questionar a respeito da ordem dos gêneros -, que há tempo venho escrevendo sobre escrever, isso tudo por causa da falta de criatividade, e bem por isso tenho que menosprezar meu blog para não me menosprezar, desdenhando-o consigo um argumento, plausível ou não, que me legitime escrever sobre escrever.

    Então faço assim: escrevo sobre escrever e vomito um emaranhado de justificativas confusas com intuito de me safar. Vê se pode um troço desses? Fico eu aqui, dizendo pra mim mesmo – mentalmente, tá?, não estou ou sou tão louco assim -, arranjando desculpas para não ter que pensar em algo de novo para postar aqui, ou digo que faço isso pra não ter que pensar em algo novo porque na realidade não consigo pensar, realmente, em algo novo, neurose, neurose, neurose, e por aí vai. Veja, você, que eu disse que não estou ou sou tão louco ao ponto de falar sozinho, mas justificar-me perante uma massa (meia dúzia de gatos pingados) sem rosto e entrar em um ciclo neurótico vicioso de justificativas tudo bem pra mim. Quanta incoerência, quanta neurose, quanta mentira. E só mais uma coisa, odeio esse tipo de gente que fica se justificando o tempo todo.

sábado, 14 de novembro de 2009

O elevador caiu pra cima

 
    Eu, particularmente, em minha própria opinião, expresso toda a revolta, advinda do meu âmago, que possuo dentro de mim mesmo. Mais precisamente, quando digo que subir pra cima ou descer pra baixo não são pleonasmos, não estou apenas defendendo uma hipótese absurda criada por um insano com disponibilidade ociosa muito maior do que deveria, possibilitando, assim, uma teoria conspiratória a respeito de pleonasmos, quero, realmente, dizer que tem fundamento baseado, principalmente, na especificidade de que um considerado pleonasmo possa acrescentar a uma ideia.
    Por exemplo, esses dias, soube duma história, e não soube duma estória, de um elevador que caiu pra cima. O cara saiu branco, não chegou a se machucar, mas é óbvio que qualquer queda de elevador, em qualquer direção, tanto pra cima como pra baixo, tem o poder de causar espanto. E claro que também causou-me interrogações, afinal, contaram-me que o elevador caíra pra cima. Mas achei a explicação bem plausível, aliás, a única maneira de expressar que o contra-peso, que equilibra e dá a cadência certa ao elevador, rompera e fizera com que o elevador subisse, subitamente, até o último andar, como consequência a brancura do homem que caiu pra cima. E ele disse que o elevador caiu, e caiu mesmo, não haveria outra maneira de contar este fato, sem entrar em maiores delongas, do que dizer que o elevador caiu pra cima, porque o sentimento foi de queda, de o quedar súbito, e a expressão que melhor designa isso, por mais absurda que possa parecer, é: o elevador caiu pra cima.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

"Liberdade: uma destas detestáveis palavras que tem mais valor que significado"


    Negros descem e sobem a montanha, carregam pedras e troncos. Do cume, após um dia de trabalho regado a suor e cansaço, almejam, com os olhos embotados de pôr-do-sol escondendo-se na unção entre oceano e horizonte, de meninos e meninas brincando pelas ruas de paralelepípedo, de senhores e senhoras rindo e bebendo vinho e de casinhas, construídas umas encostadas às outras, de tão felizes famílias livres, um dia, nem que seja nos fins de suas vidas, serem livres.

    Abraçado ao negrinho, o já velho, porém forte, negro, com os olhos tentados a transbordar desesperança, disfarça e tenta expressar um esboço de esperança.

    - Um dia o teu filho irá brincar de bola igual àquelas crianças, um dia beberás vinho com tua mulher e sorrirás alegremente.

    O negrinho, sabendo do esforço de seu avô em tentar poupá-lo, sorri dissimuladamente, tentando persuadi-lo que cria em tudo o que o mais velho contava. Era esperto o suficiente para perceber que aquelas estórias que escutava não passavam de estímulos enganosos com intuito de não permitir aos negrinhos perderem a vontade de viver.

    Mesmo sem vontade, e sem condições de atribuir sentido algum ao seu dia-a-dia, continuava a rotina, dia sobre dia subindo e descendo a montanha, carregando pedras e troncos, para construir sei-lá-o-que para sei-lá-quem.

    O agora não mais negrinho, no fim dos seus dias, encontra-se abraçado ao seu neto, após um longo dia de trabalho, no cume da montanha, observando o pôr-do-sol.



sábado, 7 de novembro de 2009

Utilidade Pública

Consegui postar nada. Não consegui postar nada. Se não consegui postar nada é porque consegui postar algo. Se postei algo é porque não consegui postar nada. Se consegui postar nada é porque não postei algo. Se não postei algo é porque postei nada. Queria postar nada. Não consegui postar nada.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Redutor de neura


    Jogo. Leste jôgo ou jógo? Tá, foi só um caricaturismo. Pára com isso. Agora, com essa palhaçada (acordo ortográfico), seria: Para com isso. E se só colocasse Para com isso, sem antes contextualizar... Ambíguo? É, eu sei. Pediria um complemento, no segundo caso [(Para usado como preposição) te subestimo demais? É fruto da neurose de ser incompreendido]. Porventura, quisesse eu,  por motivo qualquer, frasear de maneira incompleta, sem contextualizar, ficaria à mercê da tua interpretação (obviamente, sempre fico, mais ainda sem o acento diferencial).

    Pra quê simplificar se se pode complicar? As nuanças da língua propiciam maior proximidade - não significa que chegarei a estar próximo de ti -, menor desaproximação (afastamento). A minúcia, a meticulosidade, o pequeno detalhe (tá!, não vou ficar explicando aqui o pleonasmo do pequeno detalhe e nem os sinônimos “desnecessários”) são, necessariamente (invariavelmente), necessários, principalmente pra ti e pra mim, pois permitem a diminuição das neuras. Será que entendi o que quiseste que eu entendesse [(aqui, há uma rápida inversão de pessoa em relação ao pronome - o escritor se transforma na segunda do singular e o leitor  na primeira - para, na frase seguinte, voltar ao que era) ficou um tanto rodapé e quebrou a fruição, fazer o quê?]? Será que entendeste o que quis que entendesses?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fragrância

   
    Invariavelmente, em qualquer situação, gostava de provocar. Utilizava todos a sua volta como cobaias. Era asqueroso: peidava em público com a maior naturalidade. E, ao contrário da maioria, não se sentia constrangido em momento algum. Era tão natural a atitude que tinha ao peidar que quem ficava constrangido eram os outros que inalavam seu perfume.

    Foi sempre assim. Já na escola, quando criança, peidava deliberadamente em sala de aula; seu apelido era Peidão, exceção à regra, pegara apesar do gosto do apelidado pelo apelido. Até a professora se constrangia, ninguém mais sentava ao seu lado, havia um vácuo de carteiras a sua volta. Começou com um simples peidinho silencioso que deixara escapar um pequeno ruído condenatório, depois até forçava para deixá-lo barulhento, chegou a um ponto em que fazia posições, levantava uma das pernas e soltava a bufa. Era tão gostoso, o poder de constranger, pois pouco importava o que falavam dele pelas costas, afinal de contas, o que tinha importância eram as expressões de nojo e constrangimento que tirava dos rostos alheios.

    Agora, já velho, gosta de sair por aí e peidar, ver os rostos de espanto e de compaixão, pois pensam que o pobre velhinho não consegue nem mais segurar as pregas. Era só uma nova tática que a idade lhe propiciava.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Preocupação


    Saí de casa matutando, incomodado com uma situação; preocupado, como só mais tarde veria, à toa. Amanhã, vejo, como só no futuro poderia ver, que aquela situação de modo algum me incomodara. Hoje, chegou até a perturbar meus pensamentos, mas, amanhã, diz-me nada, é irrelevante. Porém, no momento em que ocorreu, não enxergara, aquela discussão realmente empesteou meus pensamentos, e fizera-me sair de casa matutando incomodado.

    Como pude pô-la em primeiro plano, se, amanhã, compreendo perfeitamente a indiferença que ela se encontra? Sinto-me tolo bem por causa disto, da irrelevância que só amanhã consigo ver. Se previsse, como suponho que poderia prever, o sentimento de indiferença, que amanhã sinto, não perderia o dia todo pensando sobre a discussão.

    Desgasto-me, amanhã, em vão, como já houvera me desgastado hoje, tão em vão como amanhã, e igualmente em vão me desgastarei depois de amanhã, perguntando-me porque me desgastara, amanhã e hoje, com pensamentos sem importância.

    Um dia não me preocuparei mais.