quinta-feira, 7 de maio de 2009

Caras e Bocas

Ao entrar na sala, sem bater na porta, percebe que ali está sendo realizada uma reunião. Com a boca, a intrusa faz uma “cara” demonstrando o constrangimento de ter chegado à sala em hora imprópria. A expressão denominada de “cara” queria transmitir a seguinte mensagem: eu não sabia que vocês estavam em reunião, volto mais tarde.

Impressionante a capacidade de uma boca (digo, “cara”, ou melhor, expressão facial) tem de transmitir uma ideia, com sucesso e em frações de segundos, sem recorrer à língua (tanto o idioma, quanto o órgão localizado na cavidade bucal). É claro que uma “boca” (boca) só não faz verão, junto à expressão significante (significado e significativo) é necessário ressaltar a importância (de igual ou maior tamanho) do contexto a qual está inserida. Como o órgão beijoqueiro, ao expressar-se, necessita da contextualização do olhar, franzir da testa, contrair das sobrancelhas, a “cara” também depende de uma história por trás para que lhe atribuam o significado.

Falando em contexto, não se pode deixar de mencionar o repertório do emissor e do receptor da mensagem. O emissor - no caso a intrusa - pressupõe a capacidade do receptor - no caso os indivíduos em reunião - de inferir o significado, idealizado por ela, à sua “boca”. Devido a tantos fatores subjuntivos, a intrusa - desfazendo a “cara” que fizera ao entrar na sala e deparar-se com a reunião - retirou-se do recinto sem saber ao certo se fora compreendida. Do lado de dentro da sala, a reunião continuou, indiferente. Com muitas caras e bocas.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A Dádiva da Dúvida

Eis que surge, do nada, uma ideia. Brilhante, opaca? Ideia. Em tempos de escassez, qualquer linha de pensamento é válida, ou, quem sabe, seria de mais valia o vácuo mental. Talvez a ausência de raciocínio seja sim, uma ideia, cuja interpretação acarretará uma dúvida paranóica: será esse silêncio a própria ideia? Ou será a falta dela? Também surgirá a incógnita: melhor um dito tolo, ou um silêncio calado? Mesmo que, o calar-se, por pura ausência de pensamento, um nada não dito, já não o é, o nada fora dito, mesmo que, sem dolo de haver significado, ele o tem.


Assim como o silêncio insignificante, palavras proferidas, muitas vezes, sem significado, têm o mesmo efeito. Fica o dito e redito por não dito. Tão difícil quanto mensurar o calar expressivo, mesmo que por pouco tempo, é interpretar palavras soltas que nada dizem, ou dizem o nada. Por vezes, é confusa até uma frase concisa, até porque, o caminho traçado a partir da ideia de transmitir um pensamento, nem sempre, ou geralmente, tem o objetivo simplório de dizer somente o proferido. De quando em quando, se não na maioria, o contrário da ideia é o propósito a ser disseminado.


Sendo brilhante ou opaca, simplória ou elaborada, estará sempre a cargo do receptor dar-lhe o sentido. Mesmo nos casos em que o transmissor for o receptor. Tais mecanismos, tanto o de criar ideias, como o de interpretá-las, permite mentirmo-nos. Eis que surge o que dá esperança: a dúvida.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Enquanto isso no meio da rua...

Nas sinaleiras, já vi malabarista, palhaço, palhaço-malabarista. No centro da cidade, mais especificamente na Filipe Schimidt, os homens-estátuas dividem a cena com índios tocando violão, entre outros cantores ou instrumentistas. Até aí tudo bem, já estava acostumado com isso. Hoje, vejo um homem-estátua localizado perto de um sinaleiro, sobre a faixa amarela que divide as mãos da rua, fazendo uma pose em que, as pontas dos dedos das mãos tocam as pontas dos dedos dos pés, com a bunda virada para cima. Agora, além do calçadão do centro da cidade e das sinaleiras, há artistas de ruas também no meio da rua. Ah sim, fiquei pensando que, em vez de ser um homem posando daquele jeito, de bunda pro ar, poderia ser uma mulher-estátua, seria mais agradável.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Ganhar na Mega Sena é para os fracos


Quando um fato de grande improbabilidade acontece, tende-se a procurar explicações esdrúxulas. Se uma pessoa cai do alto de um prédio e não morre, quase que automaticamente, pensa-se algo do tipo: não era a hora dela morrer. Em vez lembrar que, de tantas pessoas que caem, um número pequeno irá sobreviver, porém, a grande maioria irá falecer. Mesmo se a probabilidade for irrisória, como por exemplo ganhar na Mega Sena, existem tantos jogadores, que um tem que ganhar. Igualmente quando ocorre algo pouquíssimo provável, como alguém sobreviver ao cair do alto de um edifício, isso só acontece pelo fato de tantos outros terem morrido, mas é claro, que ninguém lembra do infeliz que espatifou-se no chão, afinal, era lógico que morreria.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Um outro lugar

Levanto, sento. Levanto, espreguiço-me, sento. Levanto-me, dou alguns passos, sento, caio no chão. A poltrona não estava lá. É claro. Esqueci dos passos dados. Paro por segundos, ergo-me, vou até a poltrona, sento-me. Sinto-me confortável agora, bem melhor que o chão.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Pequeno Detalhe

Enclausurado na própria clausura. Aprisionado em seu apartamento. As janelas e cortinas não são abertas há algum tempo. O cheiro de mofo com cigarro predomina no ambiente. Há dias a televisão velha está ligada no mesmo canal. Pouco se levanta da poltrona em frente à televisão. Veste uma cueca velha e nada mais. Já não toma mais banho, nem faz a barba ou escova os dentes. No chão um emaranhado de guimbas de cigarro, comidas em estado de putrefação, garrafas, sacos-plásticos. Nem ele mesmo aguenta mais essa situação. Precisa tomar uma atitude. Já sabe o que fazer. Está esperando a coragem bater à sua porta. Não enxerga mais um motivo sequer para levantar-se dali. Tudo que havia feito em vida não existe mais, e tudo que poderia vir a fazer deixará de existir. Só lhe resta uma alternativa, a mais lógica, a única plausível. “Se algum dia hei de morrer, não postergarei o destino”.


Não se sabe quando, um dia decidiu acreditar na morte. Desde então enclausurou-se em seu apartamento e em seus pensamentos. Tentou de alguma maneira, apesar de cético, negociar a vida eterna com Deus, Alá, Buda, nenhum deles lhe respondeu. A partir daí, já sabia o que teria que ser feito. Acordou um dia com coragem, decidiu por em prática o simples plano: subir até o terraço de seu edifício – que tem onze andares – e se jogar de lá de cima. Acordou, levantou-se da poltrona, desligou a televisão, tomou um banho, fez a barba, escovou os dentes, penteou o cabelo, colocou uma cueca nova, um belo terno e sapatos novos. Acendeu um cigarro, se olhou no espelho, acocorou-se para amarrar os sapatos, estava pronto, impecável, quase com vontade de voltar à vida que tinha antes de ter essa epifania com a morte. Apagou o cigarro em frente ao espelho, vislumbrou-se mais uma vez e foi em direção à porta de saída do apartamento. Entrou no elevador e subiu até o 11º andar. Chegou ao terraço. Foi até a beirada do prédio, subiu no parapeito, mais um passo e estaria feito. Lembrou-se de uns momentos de alegria: namoradas, amigos, família. Não poderia concluir o plano, afinal tinha muito o que viver, chegou a conclusão que a vida era linda. Todo esse sofrimento não tinha sido em vão, agora tinha vontade de viver, de ouvir os cantos dos pássaros, de sentir o soprar do vento. Seu plano agora era viver, sem preocupações, sem buscar lógica na vida. Ela era simplesmente bela. Queria chegar em seu apartamento, fazer uma boa limpeza, ligar para os amigos, dizer-lhes que tinha readquirido a vontade viver. No momento em que descia do parapeito, pisou no cadarço que se desamarrara, e caiu.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Não foi uma decisão simples?

Que atrocidade: fazer um aborto em uma menina de nove anos, que foi estuprada pelo padrasto. A criança estava grávida de gêmeos e corria risco de vida.


“Mas, para a equipe médica, não foi uma decisão simples. A realização do aborto passou a contar com oposição declarada do arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, um integrante da ala conservadora da Igreja. “A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Então, quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor”, acredita.”

Não entendo como pôde ter sido uma decisão difícil. Só porque a Igreja Católica é contra, ou pelo fato do arcebispo, que veio direto do túnel do tempo, declarar ser contra o aborto. Nesse caso, a opinião da Igreja tem tanta valia quanto à opinião do palhaço Bozo. Até quando a ciência se preocupará com a religião? Fizeram o aborto, tudo bem. Só não aceito o fato de os médicos declararem ser uma decisão difícil, abortar ou não, porque a Igreja ou alguém de dentro dela é contra. Essa declaração me aborrece. Vamos colocar em uma balança: de um lado, uma criança de nove anos, grávida de gêmeos em decorrência de um estupro, correndo risco de vida; do outro, um maluco, que segue uma doutrina lunática, crê em um livro escrito por não sei quem, não sei quando... Ahn? Ahn? Decisão difícil?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Genérico e simples

Gosto de coisas genéricas e simplistas. Uma frase genérica que, simplesmente, explica o comportamento humano: “não quero ser sócio de nenhum clube que aceita pessoas como eu de sócio”. Pronto. Está feita a teoria com um simples parafraseado. Outra coisa que gosto de fazer é explicar tudo pela teoria da evolução, parece que tudo fica claro. Por que as pessoas são gordas? Só recorrer à teoria da evolução. Tudo resolvido. Na pré-história era difícil se alimentar, os Homens passavam dias sem comer, então os que tinham maior capacidade de acumular gordura (energia) sobreviviam por um período maior de tempo, portanto, os que tinham essa qualidade geravam mais descendentes. Poderia listar inúmeras questões e resolveria todas pela teoria de Darwin.
Voltando ao parafraseado. Não existe melhor frase para explicar a ambição do Homem, a insatisfação. É bem verdade que um ser que cria a designação querer nunca quererá ser sócio de um clube que o aceite. Heureca! Genérica, simplista, frase perfeita, teoria perfeita. Voltando à teoria evolucionista e fazendo uma ponte com a religião. Prefiro pensar que sou fruto de uma evolução natural, conforto-me, simples e genericamente. Vou confessar que roubei a idéia dessa última frase de um zoólogo, que declarou algo parecido em uma entrevista. Continuarei na linha do raciocínio dele. Tem gente que não consegue se confortar com essa idéia e recorre ao sobrenatural para explicar a vida, assim sente-se confortável. Não questionarei o que cada pessoa faz para se sentir melhor, mais feliz, enfim. Só que existem coisas que me deixam pasmo. Ou até indignado. A discussão sobre o que será lecionado nas escolas públicas nas aulas de ciências: criacionismo ou evolucionismo. Só o fato de essa discussão existir já me dá uma ânsia. Claro que tem aquela frase famosa: Não concordo com uma só palavra que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las. Não consigo conceber nem o fato de existirem pessoas que discutam isso no âmbito científico. Abismado é o adjetivo mais próximo que consigo designar para o meu sentimento quanto aos criacionistas quando defendem a idade da Terra. Dá-me nos nervos que essa discussão ainda exista. Deus criar tudo e ponto final é genérico e simplista demais.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Estratégia de Mercado - Terrorismo Psicológico

Você vai ao Mc Donald’s comprar um lanche. O preço de uma promoção (aquela que vem com batata e refrigerante junto) nunca é exato, é algo do tipo dez reais e oitenta e cinco centavos. Ao lado do caixa tem uma caixa de plástico transparente com algumas moedas dentro. Após pagar pelo seu lanche, o caixa pergunta se você quer doar o seu troco em moedas para as crianças com câncer. Você responde que sim. Imagina responder que não, além do olhar acusador do funcionário na sua direção, as outras pessoas que estão na fila o olharão com ar de reprovação. Afinal, você não seria tão muquirana, não negaria 15, 20, 50 centavos de seu dinheiro para ajudar as criancinhas doentes. Não você, que esbanja dez reais para gastar em um lanche. E não são crianças com uma doença qualquer, estão com câncer. Saca o terrorismo? Criança com câncer, “praticamente” obrigam você a doar o dinheiro.
O Mc Donald’s usa de terrorismo psicológico para a autopromoção e lucro. Usa o seu dinheiro para “ajudar” as crianças, abate a doação do imposto de renda e ainda fica com fama de bonzinho.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Caixa de Pandora

Ouvi uma história sobre um episódio de um seriado que seria mais ou menos assim:

Um dia qualquer chega uma pessoa qualquer a sua casa. Essa pessoa toca a campanhinha, você abre a porta. “Olá, tudo bem? Em que posso servi-lo?”. O estranho que bate a sua porta carrega uma caixa de madeira com um pequeno detalhe: um botão vermelho na parte superior. Responde: “olá, tenho aqui uma caixa que possui um botão vermelho, se apertá-lo resolverá todos os seus problemas”.
Você fica se perguntando como que o simples apertar de um botão resolveria todos os seus problemas, e mais, quais seriam todos os seus problemas, e como um estranho saberia deles. “Se você apertar o botão automaticamente um milhão de reais será depositado em sua conta”, diz a pessoa, o estranho, a sua porta. E você, mais uma vez, confuso, se pergunta: “como poderia ele saber que estou passando por problemas financeiros”. Era bem verdade, você, com um milhão resolveria muitos, se não todos, os problemas. Quitaria sua casa, compraria um carro novo, pagaria a faculdade de seu filho. Você não teria motivos para não apertá-lo, não apertar o botão.
“Fique com a caixa”, diz o estranho, “quando quiser pode acioná-la. E quando apertar o botão uma pessoa que você não conhece e nunca irias conhecer morrerá”. Não fará nenhuma diferença em sua vida, já que, se for verdade, a pessoa que falecerá não teria interferência nenhuma em sua vida, basta apertar um botão e um milhão de reais será seu.
Você fica com a caixa, sua consciência fica em dúvida: “será que lidarei bem sabendo que uma pessoa será prejudicada por minha causa?”. Os problemas financeiros apertam, você será despejado de seu imóvel se não pagar a próxima parcela da hipoteca, você resolve apertar o botão. Que maravilha! Está tudo resolvido, sua vida está maravilhosa, casa quitada, faculdade do filho garantida, carro novo...
Eis que toca a sua campanhinha mais uma vez. A sua porta, o mesmo estranho, a mesma pessoa dizendo: “quero a caixa de volta”. Você, confuso, pergunta o porquê. O estranho responde: “darei essa caixa para uma pessoa que você não conhece e nunca viria ou virá a conhecer”.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Tudo virou hipótese

-Perplexo seria a palavra mais apropriada, imagino. Vamos discutir sobre o armário, ou melhor, um armário qualquer, feito de madeira. Madeira, todos sabemos de onde veio: árvore; a árvore é derrubada, cortada... Vira uma tábua. Agora pode ser trabalhada pelos marceneiros e virar um armário. Essa é a história do meu armário, onde guardo minhas roupas.
-Até aí tudo bem.
-Até aqui tudo bem?
-É só uma hipótese. Como o evolucionismo, criacionismo...
-Evolucionismo não é hipótese, é fato. A história sobre a origem do meu armário também é fato. Aprendi na escola.
-Criacionismo também aprendi na escola. Teu argumento não é válido.
-Não estou falando de aulas de Religião. Estou falando das aulas de Ciências.
-Então, aprendi criacionismo nas aulas de Ciências.
-Mas tu sabes do que eu estou falando...
-Sei não.
-Assim não dá para discutir, tu és muito cético.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Menino e O Monstro

O menino deita na cama, sua mãe fecha o livro de histórias, beija a sua testa e deseja-lhe boa noite. A história que a mãe acabara de ler para seu filho era sobre um monstro que vivia debaixo da cama e comia criancinhas. Não sei se esse tipo de livro é o mais recomendado para ler a uma criança antes de uma noite de sono.
Em sua cabeça, o menino matutava cada detalhe estapafúrdio da história. Ele só tinha oito anos, mas percebera que a história fora mal contada. Não questionara a mãe no momento em que narrava o conto “O menino e o monstro”, até porque seria uma total falta de respeito, não só com a própria mãe, mas com seus antepassados, afinal, esse livro era lido e repassado há gerações, e era levado muito a sério por toda a família.
O menino não sabia se todos realmente acreditavam naquele conto, ou só fingiam acreditar para não faltar com o respeito com os mais velhos. Mas ele, mesmo que quisesse, não conseguia crer na possibilidade daquela história ser real. “Como pode existir um monstro? Como ele existindo, poderia viver debaixo da cama e nunca ser visto? E ainda, como ele sabia quais crianças eram boas e quais eram más, para saber qual ele iria comer? E ainda se soubesse, o mesmo bem e mal para o monstro era o dos seres humanos? Que história mais sem pé nem cabeça. Mas até que é boa para pegar no sono”

sábado, 24 de janeiro de 2009

Objeto Não Identificado: presente-potente-ciente

Deus apareceu pra mim hoje (acreditem se quiser). Para o meu maior espanto Ele era: calvo, barba branca, olhos azuis, aparência de um senhor de 70 anos, vestido com um manto branco. De uma imensidão, do tamanho de um prédio de onze andares. Olha, essa altura do campeonato, eu tinha tomado apenas umas quatro ou cinco latas de cerveja, nada comprometedor, nada que pudesse tirar a credibilidade sobre a minha própria consciência, a não ser pelo fato de eu ter visto Deus. “Fiquei louco”, pensei. Mesmo assim resolvi escutá-lo, afinal não é todo dia que aparece um gigante, calvo, de barbas brancas, mesmo se for alucinação, valeu a pena tê-la. Sendo Ele ou não, é impressionante como o poder do cérebro é capaz de fazer uma coisa tão real, mesmo não sendo. Agora, abrindo um parênteses, o que acho engraçado, é que ninguém vai acreditar, quando falar que Deus apareceu pra mim, mas acreditam nele, mesmo assim acham inviável que eu possa tê-Lo visto, e vão dizer que eu estou ficando louco, eu que não acredito mesmo nessas coisas de Deus eticétaras e tals, posso até achar que estou maluco, agora, porque que Deus, que tanto existe não pode aparecer, até agora não sei direito se o que vi era real, mas era tão palpável, que resolvi começar a acreditar; foi então que Ele disse, antes mesmo que eu pudesse abrir a boca:

-Não necessitais expressar oralmente, pois sou Deus, onipotente-presente, que vos fala.

Acredito que ele não estava falando só comigo, ou será que Ele só sabe falar na segunda pessoa do plural? Continuou...

-O sentido da vida é:
Primeiro: aqueles que devotam sua vida a mim, agradeço e obrigado.
Segundo: aqueles que simplesmente acreditam, ou por simplesmente acreditarem ou por medo, também agradeço.
Terceiro: aqueles que só curtem a vida, mas têm os valores talhados pela sociedade, e mesmo não tendo crenças, agem de forma que acham certo, obrigado.
Quarto: aqueles que curtem a vida e não se importam com ninguém, e passam por cima dos próprios valores, ou dos valores talhados pela sociedade, obrigado.

Eu, sem entender nada, nem tempo de pensar, Ele prosseguiu...

-Porra bicho, sou onisciente, sei passado, presente, futuro. No momento da criação já sabia tudo o que aconteceu, não tudo o que aconteceria, sabia todo o acontecido, desde o momento em que decidi criar tudo, aliás, não decidi de uma hora pra outra, já sabia que o mundo estava criado a partir de tal ponto do tempo.
-Sim, sim. Sou sádico e não tenho mais o que fazer.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Imprevistos sem causalidades

Hoje acordei, tomei café, me machuquei, comprei jornal... Era só o que faltava aqui, um post assim. Ah, antes que eu esqueça, a parte em negrito é o início da música Querido Diário - João Bosco. Não iria começar um texto assim, creio eu.
Se fosse começar desse jeito, começaria: Um cara distinto, autêntico, acorda, como de praxe toma um café, café preto com pouco açúcar (o necessário para quebrar o amargo, mas sem mascarar o gosto do café). Estabanado, atrasado, fazendo inúmeras coisas ao mesmo tempo, bate com o joelho na quina da cadeira, xinga o nada, e continua o que iria fazer depois do processo de acordar: comprar um jornal na banca à frente de sua casa.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Post Sem Cigarro

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O que há devir

Pensei saber o que viria
Tentei antecipar o será
Pena que se tornara seria
Queria eu, tanto que fosse

Não é
Queria viver no seria
Quero o que era pra ser
Só tenho o que é

O ser
O que é
Não quero
Tenho

Prevejo o será
Manipulo o é
Para transformá-lo
Em seria

Só satisfeito
Quando o seria for é
E o é
Se tornar seria

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

...

Que lugar é este? Há anos estive aqui. Avalanchou-me as recordações existentes, de tanta luta, haviam sido empurradas para o fundo, e pensei ter conseguido, enganando-me, fazer com que elas desaparecessem, como se algo pudesse desaparecer. Sucumbi, foi tudo em vão, só adormeci-las por um período de tempo, talvez breve, talvez longo.
Tentarei empurrá-las para trás novamente, com a esperança de esquecê-las, como se fosse possível esquecer qualquer coisa, qualquer coisa até é, mas não uma memória tão importante e marcante desse tipo. Então ganharei uma breve batalha, até sucumbir novamente, e empurrá-las mais uma vez, para outra vez sucumbir. Assim espero, não quero, porém, espero.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Maliciosa, astuta, manhosa e fina

A discrição era imperceptível e sagaz. Corrigindo-me, a discrição era tanta, que imperceptível era a dona dessa qualidade tão sagaz. O ato de ser discreto não acompanha necessariamente a sagacidade, mas nesse caso acompanhava, e quem era sagaz era a qualidade discreta e não a dona.
Não posso dizer que ela, a dona, era imperceptível e sagaz, apesar da sagacidade que a dona tinha, mas essa não era a sagacidade maliciosa. A discrição dela, sim, era sagaz-maquiavélica. De tão predestinada a discrição, só descrevia. Descrição era o filme rodado em sua cabeça, observação era seu método.
De tão sagaz, a discrição perpetuava, de tanto perpetuar, a dona, que antes era só sagaz sem ser maquiavélica, se confundiu com a própria característica: a discrição. Essa, de tanta sagacidade-previsora, predestinou o vício da dona, pela descrição que a discrição propiciava.
A descrição se tornara um vício, já que a discrição não o era. A discrição e a dona já não se distinguiam mais. A dona transformara-se em imperceptível e sagaz; sagaz no mais amplo sentido da palavra. A dona era agora: malícia, astúcia, manha e finura.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Telefonema

-Alô?
-Quem fala?
-É o Presente. Poderia falar com o Armando?
-Não se encontra.
-Tá onde?
-Relembrando alguma coisa do passado.
-Que horas posso falar com ele?
-Não sei. Daqui a pouco ele tem uma reunião pra planejar as coisas para o futuro. Sabe como é, tem que garantir a sua velhice confortável.
-Sei... Mas todo caso deixarei meu telefone contigo, se o Armando ainda tiver interesse em marcar um encontro comigo.
-Acho difícil, mas está anotado. Mais alguma coisa?
-Não. A não ser que queiras marcar um encontro comigo, ando tão sozinho ultimamente.
-Posso marcar contigo só daqui um mês. Pode ser? Desculpe-me, tenho que desligar.
-Calma, fique mais um pouco comigo ao telefone.
-Não posso, tenho tanta coisa pra fazer semana que vem. Continuarei com os agendamentos. Tchau, até mês que vem.
-Mês que vem não estarei vivo. Tchau.
-O que? Calma, posso ficar mais um pouco falando com você ao telefone...
-Tu tu tu tu...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Diálogo solo

Tão exato o passo dado, cada agido é infeccionado. Pensa, vacila: age. Tão infectado, prepotente, “penso, logo ajo”. Declara o “ajo” estufando o peito em voz alta e grave. Engrandecido por não reagir, e sim, agir.
Confrontado de sua certeza esbravece, “sou ação e não reação”. Confronto, “és reação e não ação”. O argumento: de tanto pensar morreu o burro; o contra-argumento: o burro morreu de tanto pensar.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O não-regresso da não-esquecida lembrança

Sentado, sem esperança
Cada pensamento é tortura
Quer parar, pára por segundos
Quando percebe, volta à lembrança

A tortura o domina
A todo custo se distrai
Por mais segundos
O pensamento se abstrai

A volta é súbita
Súbita como a morte
A morte súbita do futebol
É sabido, virá a qualquer sorte

Hora distraído, hora lembrado
A memória está, é.
Por hora, abstraída
Por hora, lembrada

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Café e Cigarro

Aí, o cara acorda. Toma um café preto. Fuma um cigarro. Não escovou os dentes, nem lavou o rosto. De cueca, sentado no sofá, não entende nada do que se passa a sua volta. Mas cada tragada, apesar de banal, é o que ele quer fazer naquele momento; a certeza do que quer, e o prazer propiciado por aquele momento, ninguém lhe tirará.
O depois chegará, o raciocínio engrenará, aí, nada mais é certeza, aí, já se misturam vozes externas e internas. Nem ele mesmo sabe o que está fazendo agora.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Nada poderia ser diferente

Futuro do Pretérito expressa a maior de todas as crendices, a crença de que qualquer atitude passada poderia mudar o agora. O fato é que o acontecido não poderia ser diferente e pronto. O poderia já não existe e não há argumentos plausíveis para desdizer o acontecido. O fato acontecido é prova irrefutável de que não teria como ser diferente.
“Se eu não tivesse escrito esse texto”, o modo subjuntivo de igual maneira é superstição. Eu não poderia não ter escrito esse texto, posso até acreditar que não, e conceber teorias, mas nenhuma prova concreta conseguirei, o máximo que posso fazer é enganar-me, para vangloriar-me, de que eu poderia não ter escrito esse texto.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Horrorshow

Postura; roupas; costumes: teatro. Assim que levanto da cama, sozinho em casa, inicio uma bela interpretação para mim. Se há outras pessoas, elas também merecem um show a parte. Visto-me de um modo “convencional” (caçoamos das perucas utilizadas em filmes de época, espero não ser motivo de piadas, por utilizar camiseta e bermuda, em um futuro longa), não posso esquecer do meu público, que já espera certas atitudes, figurinos e falas do meu personagem. Se o contraste é grande, os espectadores chiam, esperam o esperado.
O andar ereto e de olhar sério é o esperado. Qualquer personagem que ande de modo um pouco dissimulado e com sorrisos estampados no rosto é tido como personagem de comédia. Às vezes pode ser um dramaturgo, escondido atrás de uma máscara sorridente, mas as interpretações são consensos, e o medo de confrontá-las é inerente a platéia e aos próprios intérpretes. Mesmo porque, não há diferença entre palco e platéia, todos são artistas e espectadores, uma democrática horizontalidade teatral.
Remetendo novamente ao passado, tantos rituais, burocratizações e figurações para obter a mão de uma dama, decapitar o réu. Remeto ao presente e percebo a arbitrária semelhança, por sermos personagens-platéia existe a dificuldade de enxergarmo-nos em longas medievais.
Quando digo, interpretações para tudo, digo: interpretações para tudo. Para abrir a geladeira, para conversar internamente (diálogos-monólogos). Nada escapa do espetáculo - sentido literal da palavra nada, contrário de tudo (tudo no sentido de totalidade absoluta, o infinito viável). Poderia me alongar em exemplos infindáveis, mas a frase, “nada escapa do espetáculo”, interpretada no sentido literal, já homogeneíza todos os exemplos, a única coisa que poderia fazer, seria elencar alguns consensualizados mais pudicos para a humanidade: sexo, escatologia, religião.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Polo-Aquático das Arábias

Super-idéia: Time Mania para ajudar os desabrigados, desalojados e as microempresas que sofreram com a enchente-enxurrada-avalanche. Outra: Em vez de cobrar os impostos a qualquer custo, mesmo o vendedor recebendo os pagamentos parcelados, tem de pagar as taxas governistas à vista, deixem de cobrar e depois resolvam com a Time Mania. Mais uma: financiem, subsidiem, ajudem essas família-empresas, que geram empregos e impostos, dinheiro para os governantes, ajudem eles com dinheiro público, que depois vocês conseguirão mais.
Qualquer coisa é só fazer a Time Mania, a solução para todos os nossos problemas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Tudo é Tudo e Nada é Nada

Indivíduos porra nenhuma. O ar não nos separa, une-nos. O pronome oblíquo da oração anterior significa: homo sapiens, chinelo, pedra, nuvem, canis lupus. Parte de um só corpo, tentarei denominar: Universo (se houver mais de um, ele englobará todos esses universos, enfim, Universo, para via desse texto, significa a abstração do tudo, do todo).
Propriedade não existe. O nada não existe, o vácuo não existe. “Tudo é tudo e nada é nada”, como já diria eu. Assim como a palavra abstrata nada, o tudo, contido dentro dele mesmo é coisa abstrata. Mas, na prepotência de tentar explicar e compreender o Universo, o tudo, contido nele mesmo, é o mais próximo do concreto que consigo imaginar.
E se, qualquer objeto sideral, macroscópico, ou no âmbito atômico, microscópico, consegue transitar (não acredito em tempo e movimento, pararei por aqui, se não o parênteses ficará maior que o texto) entre dois pontos divergentes, é porque algo ali é existente, analogicamente, atravessamos a rua através do ar.
Também, dentro da abstração do tudo e todo, só consigo imaginar uma perpetuidade contida nela mesma, do sempre foi e sempre será. Momento inicial de criação, Big-Bang, ou momento final, Big-Crunch, chamem como quiserem, dia do juízo final, enfim, não faz lógica na minha cabeça. Não que faça lógica a abstração da perpetuidade contida, mas é a abstração que mais se aproxima da minha tentativa prepotente de explicar o inexplicável (será mesmo inexplicável, segundo umas partes, que se dizem indivíduos, do Universo, de proporções atômicas em relação ao todo, é inexplicável).
Abrirei um parênteses, “dentro de toda a aleatoriedade e da grandeza do Universo, surgiram, surgirão ou surgem (não surgem, surgirão ou surgiram) inúmeros tipos de objetos (individualizarei para a tentativa de tradução desta idéia): bolas de fogo, bípedes, carbono, ribossomos, vírus, meteoros, cadeiras etc etc etc”, constato.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A racionalidade destrói o Planeta Terra

Manchete de capa dos principais impressos



Terra, fogo, vento, água, coração! Pela união dos seus poderes, eu sou o ser humano! Coração, traduzido no contexto: sentimento que só os seres-praga do planeta Terra conseguem desfrutar, os criados à imagem de Deus. Expliquem-me, por misericórdia, qual a diferença entre teocentrismo e antropocentrismo.

O dicionário difere, perdoe-me a arrogância, eu não. Até o dia quatro de dezembro de 2008, foi constatado: a racionalidade destrói o Planeta Terra. Células cancerígenas, nada mais, criadas de Deus, com a missão: destruam o Planeta de Lúcifer. Lúcifer, de modo demasiado, ama o Planeta Terra. Só quer viver como a serpente, que outrora, vagara pelo Jardim de Éden. Uma maçã foi bastante para expulsar Adão e Eva de lá. Agora o trabalho ficou ardiloso. “Adão e Eva” reproduzem que nem pragas (ou as pragas reproduzem que nem Adão e Eva): de duas células, para 6,5 bilhões.

Gostaria eu poder-me dizer mamífero. Ao contrário dos mamíferos, somos desarmônicos, desafinados. E, ressalva dada, dizem por aí, ser a nossa maior qualidade, a racionalidade: dissonância harmônica da orquestra Planeta Terra, Sistema Solar, Via Láctea, Universo, Multiverso...

Concluiremos o objetivo a que viemos? A guerra está aí, que não se espalhe para os confins, que a Terra seja um mero peão, e que reine absoluto Lúcifer.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A Religião e O Pato

Dedos entrelaçados, cotovelos apoiados, o cheiro é defumado.
Da cabeceira, o chefe profere as palavras lentamente,
os murmúrios das laterais o acompanham instintivamente.
Cotovelos desapoiados, o ritual está começado, agora desfrutam o almejado:
O pato defumado, com tanto carinho, foi preparado.
E a pergunta: por que no domingo e não na segunda?
Resposta mascada, com a boca no pato.
Tinir dos metais, tudo encerrado, a pergunta das laterais:
Quando vão parar de inventar rituais?

domingo, 30 de novembro de 2008

“É que Narciso acha feio o que não é espelho

E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho”


“Morte, a melhor invenção do homem”. Como as obviedades surpreendem, idéias simples, geniais. De tão simplórias penso, “mesmo eu poderia ter pensado”. Subestimações a parte, quando leio frases de grandes autores, não me penso como criador delas, apesar de várias tentativas de formulações do tipo, “só sei que nada sei”, Sócrates.
A primeira frase desse texto foi dita por Steve Jobs em um discurso de formatura de uma importante Universidade dos EUA. O cara não tem curso superior, pelo menos não da maneira ortodoxa e taxativa com que a sociedade se limita a classificar quem tem ou não o saber devido a um diploma. Esse cara (não o chamarei de Jobs, nem de um dos criadores da Apple) é simplório e corajoso. Corajoso o suficiente para fazer o que acredita e acha certo. Simplório por obedecer não só a razão, deixar-se guiar um tanto pela emoção, pelo que sente que é o correto.
Faminto, apaixonado. A razão inibi a impulsividade, arrogante como somos, julgamos saber tudo e até o que é melhor para nós, condicionamo-nos a pensar que a melhor escolha a se fazer é a racional.
Somos a raça superior: prepotente-narcísica-egocêntrica.
Parte1

Parte2

sábado, 29 de novembro de 2008

"O que será que será"

Aquecimento global, El niño, efeito estufa, La niña...

“Se fizer bom tempo amanhã, se fizer bom tempo amanhã, eu vou. Mas se por exemplo chover, mas se por exemplo chover, não vou”. É, Maricotinha, diz que eu não tô, não tô, nem vô.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Eu, robô?

Sempre que desço do meu apartamento para a área livre em volta do hall de entrada, com o pretexto de fumar um cigarro, e convido algum amigo para papear, os papos se repetem esporadicamente. Hoje a conversa retomada e ensebada foi: as crianças que não estão embaixo dos blocos (moro em um condomínio de cinco blocos) brincando. E os papos envoltos, do que podemos chamar de o principal tema, seriam: nostalgia, capitalismo, consumismo, pessoas-máquina etc.

Falo mal dessa geração computadorizada em ambos os sentidos: nascem pensando que nada fora do Google é real e são robotizadas desde o nascimento. O que antes era o papel da televisão, agora é do computador. Só que a TV não é tão autoritária quanto um computador e não exige tantas horas de dedicação.

Polícia e ladrão, esconde-esconde, pique-bandeira, detetive, stop, forca, nada disso mais presta. “Corrida de tampinhas, cavávamos na areia do parquinho para fazer as pistas, as regras: quem sair do percurso volta para o início, ganha quem chegar ao final da corrida com o menor número de petelecos”, recordo-me.

O que vejo hoje são crianças barrigudas, ensebadas de Mc Donalds em volta de suas bocas. Subir em árvores para pegar uma fruta sem agrotóxico, contarei um dia que fiz isso, do mesmo jeito que me contam sobre a época que não havia televisão e eletricidade. Ah, já ia esquecendo, brincar de aventura, subir, trepar, pular, descer, escorregar de muros, pedras, árvores, qualquer lugar pouco confiável, também deixou de ser divertido.

Deixando a nostalgia de lado, essa geração de autômatos fica em casa, sob vigilância de seus computadores, os pais, os pais estão tranqüilos, seus filhos não quebrarão os braços nem as pernas e ainda estão se preparando muito bem para o futuro, o futuro é a internet, são os computadores, são as inúmeras línguas que esses adultinhos aprendem. E os pais? Os pais contam com maior orgulho, “meu filho só tira dez no boletim, vou levá-lo ao Mc Donalds como recompensa”. “Meu filho tem dez anos e fala inglês, espanhol e aramaico, entende tudo de computador”. “Meu filho está preparado para o mercado de trabalho, vai ser engenheiro não sei das quantas, ganhará não sei quanto”. “Meu filho, meu filho, meu filho"...

Não sei o que acontece com meu filho, me mato de trabalhar, dou tudo pra ele e ele nunca está satisfeito”. “Quantos não gostariam de ter essa vida, e meu filho só reclama”. “O que foi que fiz de errado?”. Uma geração de pais que culpam os próprios pais e se culpam. Uma geração de filhos domesticada pelos computadores. As mulheres estão trabalhando, os homens trabalhando mais ainda, os filhos estão atolados de tarefas, sendo produzidos em série, só falta o código de barra (será que falta?), quem os consumirá? O mercado, o mercado precisa dessas máquinas. Os jogos e programas de PCs já os instruem desde pequenos a serem produtos para o mercado, os pais caíram na balela das propagandas (televisão, filmes, novelas, “jornalismo”) por se sentirem culpados pelo tempo que não passam com suas crianças, lhes dão matéria, e virou um ciclo vicioso: cada vez mais culpados, cada vez mais matéria, para mais matérias, mais trabalho.

Enquanto isso, os grandes consumidores dessa geração estão bem, estão garantindo os produtos que eles querem. Só que esses robôs encomendados por eles, demoram para ser feitos, uns vinte anos pelo menos. Fico pensando quando começarão a colocar agrotóxicos e adubos artificiais nos bebês e crianças para que elas aprendam e cresçam mais rapidamente. Ou será que já está sendo feito isso?

Vicente Figueiredo

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Rali dos Sertões

Se tivesse passado um mês fora, e chegasse em Florianópolis só hoje, pensaria: uma chuva de meteoros atacou nossa ilha e nossa cidade passara a se chamar Pequenópolis. Afinal, coisas bizonhas e incrédulas andam acontecendo por aqui.

Como se não bastasse as efêmeras coligações partidárias que acontecem em todas as eleições, agora quem decidiu juntar-se a toda a sujeira foi o povo lá de cima, do PDC (Partido do Céu). Dário Berger e São Pedro coligaram-se para promover o Rali dos Sertões. E tinha data marcada, o Rali. O nosso obreiro apressou-se e fez de tudo para cumprir o prazo estipulado por São Pedro. Mesmo durante as eleições, segundo e primeiro turno, Dário não mediu esforços e continuou trabalhando para que o Rali fosse realizado na data prevista. O meteorologista dos céus não iria esperar, ele cumpre ordem do chefe do PDC, e esse chefe não adia e nem perdoa nada (vide os furacões, terremotos, tsunamis e outras tantas obras que os pedecistas fazem).

Até que enfim uma promessa feita e cumprida no prazo determinado. Meio dia, horário de pico no trânsito de Pequenópolis, Dário manda obra; oito horas da manhã, todos indo para o serviço, Dário manda obra; eleições ocorrendo, Dário manda obra. E agora, nesse instante, qualquer pessoa pode participar desse inigualável Rali, O Rali dos Sertões, O Rali da Pequenópolis. Qualquer um que tenha um pouco de coragem, espírito aventureiro e um carro poderá enfrentar os inúmeros obstáculos: buracos, obras, chuvas, aglomeração de carros. E quem achar pouco, por volta das seis da tarde, ainda tem o desafio: atravesse a ponte no meio do caos em menos de quinze minutos. Quem tiver êxito revelará sua real identidade: nasceu no planeta Kripton.
Vicente Figueiredo

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O brasileiro Obama



"Barack Obama imitou nossa propaganda e fez um programa de TV de meia hora. Como um candidato à prefeitura de Fortaleza, ele prometeuoferecer remédio grátis e construir umas creches na Zona Oeste, se é que entendi direito"



Eu desconfio de qualquer americano que saiba localizar a Toscana no mapa. O melhor dos Estados Unidos é isso: o sincero descaso de seus habitantes pelo que acontece a mais de 1 milha de suas casas hipotecadas. Quem está do lado de fora, na Toscana ou no Tocantins, costuma interpretar esse descaso como uma forma de menosprezo. Mas é o contrário: é uma forma de modéstia. Os americanos apegam-se a um ou dois conceitos herdados de seus antepassados e, com humildade, simplesmente se recusam a discuti-los. Temo o dia em que eles decidam endurecer o molejo de seus Dodge Durango. Temo o dia em que um estudante secundarista de Dakota do Norte seja proibido de descarregar sua espingarda no pátio da escola. Temo o dia em que um imigrante ilegal, sem plano de saúde, seja prontamente atendido no hospital.


Barack Obama representa um americano mais cosmopolita, que come espaguete com bottarga, instala um bidê em seu banheiro e está disposto a tomar chá de menta com o terrorista palestino que dá aulas em Colúmbia. Com Barack Obama, a campanha eleitoral americana se internacionalizou. Pior do que isso: ela se abrasileirou. Alguns dias atrás, Barack Obama imitou nossa propaganda e fez um programa de TV de meia hora. Como um candidato à prefeitura de Fortaleza ou de Rio Branco, ele prometeu oferecer remédio grátis e construir umas creches na Zona Oeste, se é que entendi direito. O abrasileiramento da campanha de Barack Obama tem outros aspectos igualmente alarmantes, como o plano de redistribuir renda aumentando os impostos dos mais ricos, e doando dinheiro aos mais pobres. O futuro dos Estados Unidos é Patrus Ananias.


O ritmo de samba contaminou até mesmo a imprensa americana. Nas primeiras páginas dos jornais, Barack Obama recebeu 45% de cobertura positiva. John McCain, 6%. O New York Times comportou-se como o jornal de um senador maranhense, aderindo à campanha de seu candidato. Um jornal pode aderir à campanha do candidato que quiser. O que está errado é o empenho em abafar todos os fatos que possam criar-lhe algum tipo de constrangimento. Foi o que ocorreu neste ano nos Estados Unidos. Qualquer pergunta sobre Barack Obama foi caracterizada como uma forma de racismo, ou de asnice, ou de caipirice.
Se a campanha de Barack Obama contou com mais dinheiro, com a torcida do presidente iraniano e com a ajudinha marota da imprensa, a de John McCain respondeu à altura com Tito, o Construtor. Tito, o Construtor, é igual a Bob, o Construtor: tem o mesmo capacete de operário, o mesmo trator, a mesma betoneira. Só que, ao contrário de Bob, o Construtor, que é feito de plástico, Tito, o Construtor, é feito de tamales e de chicharrón. Ele é um imigrante colombiano. Na semana passada, subiu no palanque dos republicanos e, com seu sotaque de Speedy Gonzales, pediu mais liberdade e menos impostos, recusando as migalhas do governo e defendendo o trabalho duro. Se Barack Obama derrotar Tito, o Construtor, nunca mais ponho os pés na Toscana.




Diogo Mainardi, texto extraído da revista Veja, 5 de novembro de 2008.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O fingidor de madeixas



A arte de disfarçar a careca é ancestral e conta com alguns adeptos famosos, como Donald Trump. Mas Plínio Darcy, grande autoridade no assunto, recusa-se até a admitir que tenha a mais incipiente deficiência capilar




Sou Plínio Darcy, tenho 53 anos, trabalho como representante de uma multinacional de produtos para emagrecimento e, a despeito da opinião de alguns caluniadores, não sou careca. Sequer sou calvo. O objetivo deste modesto artigo é defender-me da gente desalmada que se acotovela na borda da piscina do clube quando salto do trampolim. Escrevo para os pobres de espírito que aguardam eu emergir das águas para se contorcer em gargalhadas, só porque meu belo topete se desmancha em uma língua grisalha que escorre até a altura do mamilo esquerdo.

Olha o disfarçador de careca!”, gritam os imbecis. Como posso ser careca se, como acabo de relatar, minhas madeixas molhadas vão até o peito? Um peito bastante cabeludo, por sinal. Não sou careca e, como já passei dos 50, acho muito difícil que um dia venha a sê-lo. Apenas me penteio de forma pouco ortodoxa. Iconoclasta, talvez. Mas isso é estilo. E estilo é estilo.

Penteado não é o termo exato para explicar o que se passa na minha cabeça. Não existe vocábulo no nosso pobre léxico para descrever um cabelo como o meu. Aqui no Brasil, onde nada é cinza, os homens são classificados como carecas ou cabeludos, sem qualquer gradação. Nos Estados Unidos, há uma expressão para explicar o visual de pessoas como eu. Lá, eu seria um combover, que o gerente lá da firma traduziu para “penteia por cima”. Fizeram até um documentário sobre a minha classe: Combover – The Movie, película respeitosa e de grande sensibilidade. Ela mostra gente que se esforça para preencher uma insignificante falha – nada a ver com calvície – que separa duas áreas povoadas de cabelo. É possível encontrar casos em que a falha cobre uma área, digamos, relevante da cabeça. Mas, enquanto uma ponte de cabelos puder recobrir a superfície deserta, ninguém poderá chamar um combover de careca.

Um dos meus clientes gorduchos, um careca de verdade, veio perguntar se eu não achava ridículo o meu penteado. Respondi que, para princípio de conversa, não faço penteado. Penteado é algo efêmero, que pode ser mudado com uma chapinha ou uma escova progressiva. O meu não surgiu na semana passada, num salão de cabeleireiro. Nem me recordo quando surgiu a maldita falha no meu couro (pouco) cabeludo. Só sei que certo dia comecei a ajeitar o cabelo de forma a cobrir a pequenina falha. Ela continuou crescendo e eu continuei penteando por cima dela. Hoje, sou assim.

A opção pelo combover é uma viagem sem volta. Da mesma forma, um careca não pode tomar a decisão de se tornar combover da noite para o dia. A ponte entre os dois tufos de cabelo leva anos para ser construída, ajeitada, laqueada, cuidada, mimada com fartas doses de Quina Petróleo e Kolecarpina. É um projeto de vida – e não uma decisão estética.

Raciocinem comigo. A diva Angelina Jolie marcou na carne do braço, com motor, agulhas e tintas, o desenho de um estranho dragão e o nome do ainda mais estranho marido dela, à época: Billy Bob. Não satisfeita, lascou um “forever”. Deborah Secco, moça magrinha, fez uma complexa intervenção cirúrgica para enxertar duas enormes bolas de material sintético entre os seios e as costelas. Amy Winehouse, a cantora do momento, atravessou o lábio com uma peça de ferro que termina dentro da boca, como aquelas argolas que são colocadas em touros para amansá-los. Por que tatuagens, peitos de silicone e piercings são coisas aceitas como normais e até embelezadoras, enquanto o meu cabelo é tratado como uma aberração de circo?

Sorte que nem todos tratam os de minha classe como atrações circenses. Raramente um homem se torna combover sem o apoio de outra pessoa. Alguém precisa ser cúmplice e incentivador. No meu caso, foi o Heraldo, barbeiro aqui da esquina, que corta o meu cabelo desde que eu era guri. Ele concebeu a melhor forma de disfarçar a falha na minha cabeça. E, desde então, só ele põe a mão na minha sagrada cabeleira. Preocupa-me muito constatar que ele está velhinho e, pela ordem natural das coisas, sua cumplicidade me fará falta um dia. Minha esperança é a mulher de um amigo, que não só conceituou o combover dele como o poda periodicamente. Ele me ofereceu os préstimos dela, na falta do Heraldo. A senhora parece ter mãos de ouro, pois o adorno capilar do meu amigo é invejável.

Por falar em estilo, Heraldo me ensinou bastante sobre o assunto. Ao longo de quarenta anos de carreira, ele aprendeu a cobrir falhas dos mais diferentes tamanhos e formatos. Ele diz que o combover que cobre a famosa coroinha de frade é o menos respeitável, pois é simples de fazer. O que cobre as entradas na testa também não exige muita ciência, pois a ponte tem mais pontos de apoio para ser erguida. Já para ser um combover de topete, como eu, é preciso tope-te. Combover de mulher chama-se aplique – e é socialmente aceitável, embora desonesto, pois utiliza fios de cabelo de outras pessoas. Já ouvi falar de alguém que faz a ponte a partir das costeletas (um mestre!) e, pela internet, juro que vi fotos de um camarada que faz combover com os fios do bigode (um gênio!). E, claro, acima de todos eles, há Donald Trump.

Trump é o cão-alfa da nossa matilha. Se não olharmos sua pelagem bem de perto, jamais entenderemos que ele penteia o cabelo de trás para frente. O mundo inteiro acha que é de frente para trás. Se o combover é, como diz minha namorada, uma espécie de embuste capilar, Trump é Houdini. Se um dia ele resolver dar um mergulho na piscina lá do clube, duvido que alguém tenha a audácia de caçoar.
Marcos Caetano, texto extraído da revista Piauí de outubro.