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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eliane Brum contra os clichês

    Texto magnífico da Eliane Brum . É mais fácil deixar-se moldar do que moldar-se. Só apagando as vozes exteriores e escutando as interiores é que faz sentido. O resto é balela. É esta a síntese da minha interpretação de seu texto.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Diálogo

- Acha que se devia glorificar a bebida?
- Não mais do que qualquer outra coisa...
- Beber não é uma doença?
- Respirar é uma doença.
- Não acha os bêbados condenáveis?
- Acho, a maioria. E também a maioria dos abstêmios.
- Mas quem se interessa pela vida de um bêbado?
- Outro bêbado.
- Acha beber muito um hábito socialmente aceitável?
- Em Beverly Hills, sim. Na sarjeta, não.


Trecho do romance Hollywood, de Chales Bukowski

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dois artigos de Luis Felipe Pondé


Publicados na Folha de São Paulo




sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O brasileiro Obama



"Barack Obama imitou nossa propaganda e fez um programa de TV de meia hora. Como um candidato à prefeitura de Fortaleza, ele prometeuoferecer remédio grátis e construir umas creches na Zona Oeste, se é que entendi direito"



Eu desconfio de qualquer americano que saiba localizar a Toscana no mapa. O melhor dos Estados Unidos é isso: o sincero descaso de seus habitantes pelo que acontece a mais de 1 milha de suas casas hipotecadas. Quem está do lado de fora, na Toscana ou no Tocantins, costuma interpretar esse descaso como uma forma de menosprezo. Mas é o contrário: é uma forma de modéstia. Os americanos apegam-se a um ou dois conceitos herdados de seus antepassados e, com humildade, simplesmente se recusam a discuti-los. Temo o dia em que eles decidam endurecer o molejo de seus Dodge Durango. Temo o dia em que um estudante secundarista de Dakota do Norte seja proibido de descarregar sua espingarda no pátio da escola. Temo o dia em que um imigrante ilegal, sem plano de saúde, seja prontamente atendido no hospital.


Barack Obama representa um americano mais cosmopolita, que come espaguete com bottarga, instala um bidê em seu banheiro e está disposto a tomar chá de menta com o terrorista palestino que dá aulas em Colúmbia. Com Barack Obama, a campanha eleitoral americana se internacionalizou. Pior do que isso: ela se abrasileirou. Alguns dias atrás, Barack Obama imitou nossa propaganda e fez um programa de TV de meia hora. Como um candidato à prefeitura de Fortaleza ou de Rio Branco, ele prometeu oferecer remédio grátis e construir umas creches na Zona Oeste, se é que entendi direito. O abrasileiramento da campanha de Barack Obama tem outros aspectos igualmente alarmantes, como o plano de redistribuir renda aumentando os impostos dos mais ricos, e doando dinheiro aos mais pobres. O futuro dos Estados Unidos é Patrus Ananias.


O ritmo de samba contaminou até mesmo a imprensa americana. Nas primeiras páginas dos jornais, Barack Obama recebeu 45% de cobertura positiva. John McCain, 6%. O New York Times comportou-se como o jornal de um senador maranhense, aderindo à campanha de seu candidato. Um jornal pode aderir à campanha do candidato que quiser. O que está errado é o empenho em abafar todos os fatos que possam criar-lhe algum tipo de constrangimento. Foi o que ocorreu neste ano nos Estados Unidos. Qualquer pergunta sobre Barack Obama foi caracterizada como uma forma de racismo, ou de asnice, ou de caipirice.
Se a campanha de Barack Obama contou com mais dinheiro, com a torcida do presidente iraniano e com a ajudinha marota da imprensa, a de John McCain respondeu à altura com Tito, o Construtor. Tito, o Construtor, é igual a Bob, o Construtor: tem o mesmo capacete de operário, o mesmo trator, a mesma betoneira. Só que, ao contrário de Bob, o Construtor, que é feito de plástico, Tito, o Construtor, é feito de tamales e de chicharrón. Ele é um imigrante colombiano. Na semana passada, subiu no palanque dos republicanos e, com seu sotaque de Speedy Gonzales, pediu mais liberdade e menos impostos, recusando as migalhas do governo e defendendo o trabalho duro. Se Barack Obama derrotar Tito, o Construtor, nunca mais ponho os pés na Toscana.




Diogo Mainardi, texto extraído da revista Veja, 5 de novembro de 2008.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O fingidor de madeixas



A arte de disfarçar a careca é ancestral e conta com alguns adeptos famosos, como Donald Trump. Mas Plínio Darcy, grande autoridade no assunto, recusa-se até a admitir que tenha a mais incipiente deficiência capilar




Sou Plínio Darcy, tenho 53 anos, trabalho como representante de uma multinacional de produtos para emagrecimento e, a despeito da opinião de alguns caluniadores, não sou careca. Sequer sou calvo. O objetivo deste modesto artigo é defender-me da gente desalmada que se acotovela na borda da piscina do clube quando salto do trampolim. Escrevo para os pobres de espírito que aguardam eu emergir das águas para se contorcer em gargalhadas, só porque meu belo topete se desmancha em uma língua grisalha que escorre até a altura do mamilo esquerdo.

“Olha o disfarçador de careca!”, gritam os imbecis. Como posso ser careca se, como acabo de relatar, minhas madeixas molhadas vão até o peito? Um peito bastante cabeludo, por sinal. Não sou careca e, como já passei dos 50, acho muito difícil que um dia venha a sê-lo. Apenas me penteio de forma pouco ortodoxa. Iconoclasta, talvez. Mas isso é estilo. E estilo é estilo.

Penteado não é o termo exato para explicar o que se passa na minha cabeça. Não existe vocábulo no nosso pobre léxico para descrever um cabelo como o meu. Aqui no Brasil, onde nada é cinza, os homens são classificados como carecas ou cabeludos, sem qualquer gradação. Nos Estados Unidos, há uma expressão para explicar o visual de pessoas como eu. Lá, eu seria um combover, que o gerente lá da firma traduziu para “penteia por cima”. Fizeram até um documentário sobre a minha classe: Combover – The Movie, película respeitosa e de grande sensibilidade. Ela mostra gente que se esforça para preencher uma insignificante falha – nada a ver com calvície – que separa duas áreas povoadas de cabelo. É possível encontrar casos em que a falha cobre uma área, digamos, relevante da cabeça. Mas, enquanto uma ponte de cabelos puder recobrir a superfície deserta, ninguém poderá chamar um combover de careca.

Um dos meus clientes gorduchos, um careca de verdade, veio perguntar se eu não achava ridículo o meu penteado. Respondi que, para princípio de conversa, não faço penteado. Penteado é algo efêmero, que pode ser mudado com uma chapinha ou uma escova progressiva. O meu não surgiu na semana passada, num salão de cabeleireiro. Nem me recordo quando surgiu a maldita falha no meu couro (pouco) cabeludo. Só sei que certo dia comecei a ajeitar o cabelo de forma a cobrir a pequenina falha. Ela continuou crescendo e eu continuei penteando por cima dela. Hoje, sou assim.

A opção pelo combover é uma viagem sem volta. Da mesma forma, um careca não pode tomar a decisão de se tornar combover da noite para o dia. A ponte entre os dois tufos de cabelo leva anos para ser construída, ajeitada, laqueada, cuidada, mimada com fartas doses de Quina Petróleo e Kolecarpina. É um projeto de vida – e não uma decisão estética.

Raciocinem comigo. A diva Angelina Jolie marcou na carne do braço, com motor, agulhas e tintas, o desenho de um estranho dragão e o nome do ainda mais estranho marido dela, à época: Billy Bob. Não satisfeita, lascou um “forever”. Deborah Secco, moça magrinha, fez uma complexa intervenção cirúrgica para enxertar duas enormes bolas de material sintético entre os seios e as costelas. Amy Winehouse, a cantora do momento, atravessou o lábio com uma peça de ferro que termina dentro da boca, como aquelas argolas que são colocadas em touros para amansá-los. Por que tatuagens, peitos de silicone e piercings são coisas aceitas como normais e até embelezadoras, enquanto o meu cabelo é tratado como uma aberração de circo?

Sorte que nem todos tratam os de minha classe como atrações circenses. Raramente um homem se torna combover sem o apoio de outra pessoa. Alguém precisa ser cúmplice e incentivador. No meu caso, foi o Heraldo, barbeiro aqui da esquina, que corta o meu cabelo desde que eu era guri. Ele concebeu a melhor forma de disfarçar a falha na minha cabeça. E, desde então, só ele põe a mão na minha sagrada cabeleira. Preocupa-me muito constatar que ele está velhinho e, pela ordem natural das coisas, sua cumplicidade me fará falta um dia. Minha esperança é a mulher de um amigo, que não só conceituou o combover dele como o poda periodicamente. Ele me ofereceu os préstimos dela, na falta do Heraldo. A senhora parece ter mãos de ouro, pois o adorno capilar do meu amigo é invejável.

Por falar em estilo, Heraldo me ensinou bastante sobre o assunto. Ao longo de quarenta anos de carreira, ele aprendeu a cobrir falhas dos mais diferentes tamanhos e formatos. Ele diz que o combover que cobre a famosa coroinha de frade é o menos respeitável, pois é simples de fazer. O que cobre as entradas na testa também não exige muita ciência, pois a ponte tem mais pontos de apoio para ser erguida. Já para ser um combover de topete, como eu, é preciso tope-te. Combover de mulher chama-se aplique – e é socialmente aceitável, embora desonesto, pois utiliza fios de cabelo de outras pessoas. Já ouvi falar de alguém que faz a ponte a partir das costeletas (um mestre!) e, pela internet, juro que vi fotos de um camarada que faz combover com os fios do bigode (um gênio!). E, claro, acima de todos eles, há Donald Trump.

Trump é o cão-alfa da nossa matilha. Se não olharmos sua pelagem bem de perto, jamais entenderemos que ele penteia o cabelo de trás para frente. O mundo inteiro acha que é de frente para trás. Se o combover é, como diz minha namorada, uma espécie de embuste capilar, Trump é Houdini. Se um dia ele resolver dar um mergulho na piscina lá do clube, duvido que alguém tenha a audácia de caçoar.
Marcos Caetano, texto extraído da revista Piauí de outubro.